1940
Berlim, Alemanha.
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Acordou bem cedo aquela manhã, o homem alto e esbelto, seu nome era Vicktorio De Nico.
Tinha cabelos compridos até o meio das costas, de dourado brilhante, bem cheios e cacheados, com uma franja enrolada para o lado. Olhos azuis claros e profundos, lábios grossos, nariz fino e longo, que combinava com o rosto alongado, bonito e de aparência doce.
Acordou a esposa, a bela Charlotte que se parecia tanto com ele quanto a própria irmã do rapaz. Quem não a conheceu, perdeu toda a sua doçura que impregnava no ar.
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- Eles não vão desconfiar, querido? Não parecemos as pessoas daqui...
- Eles estão em plena guerra, não vão notar... O que eu faço com meu cabelo?
- Deixe que eu lhe faça uma trança, vai ficar lindo com a boina que comprei ontem!
E pelo reflexo do espelho trocavam sorrisos açucarados...
- Se tudo der certo, até o fim do dia vou estar trabalhando na sapataria.
- Espero que sim! Eu ficarei cuidando das crianças! Farei o ensopado de abóboras que você tanto gosta...
Fazia uma semana que haviam se mudado para Berlim, com a promessa de uma vida tranquila, ou não.
O pai de Vicktorio achou que lhes faria bem ver o que estava se passando na metrópole pois nada parecia tão ruim no campo, pelos menos para eles.
Vicky era ingênuo, alegre, nada parecia lhe assustar. Feliz com sua amada e seus 6 filhos, eram todos tão jovens, ele, ela, e suas crianças.
E amarrando sua gravata, sorriu e disse:
- Como que vou passar um dia inteiro longe de uma mulher tão linda?
E com a ternura de sempre ela respondeu:
- Estarei aqui, mas prometa que voltará cedo!
- Voltarei o mais cedo que puder!
- De verdade?
- Sim! Verdade verdadeira!
E com um beijo se despediram.
Vick, tranquilo como sempre, leu seu jornal na cafeteria, comendo um croissant e conversando com um rapaz, que parecia debochar de sua aparência e do seu cabelo. Foi para a sapataria e conseguiu o emprego que procurava.
Todos na sapataria, que trabalhavam, que entravam e que saiam, ficavam maravilhados com a simpatia do jovem, sempre sorrindo.
E passava pela rua a tropa de carros, eram os homens do Füher, nada de novo. Uns paravam e conversavam com Vick, não achavam normal seu sotaque, mas quem ligaria pra um sapateiro sorridente? E o rapaz com nada se espantava, fez simpatia até com um senhor de bigode engraçado que passou para pegar seu par de sapatos.
Mas sua mente não saia de sua amada Charlotte, de seus olhos cativantes. nunca tinha trabalhado fora de casa antes, praticamente passava o dia ajudando a cuidar dos filhos enquanto o irmão mais velho, Narciso, cuidava dos negócios do pai.
Mas seu tesouro era a moça que laçava seus olhos. Quem não a viu, quem não a conheceu, perdeu metade da vida em vão. Nada iluminava mais a manhã que seu sorriso, e o que poderia ser mais suave que seu falar? E seu par era juntamente um lírio do campo, quem não conhece o rapaz diria maldades de seus trejeitos... E os dois saiam a cantar e cantarolar pelo casarão onde viviam com os pais... E sonhava acordado, pois poucas horas eram o suficiente para sentir saudades do rosto da amada...
- Acorde garoto! Há sapatos para consertar!
Mas oh! Tinha que trabalhar...
- Sim senhor! Não vou mais me demorar...
Ah! E o garoto passou o dia a consertar.
E estava tão feliz, passou por toda a cidade para entregar encomendas de saltos e para engraxar botinas, viu tanta coisa linda! A praça, os tribunais, o palácio do Füher (não negue que ele tinha bom gosto), os passantes bem vestidos... Mal via a hora de voltar para casa para contar tudo para a esposa e para as crianças, e é claro, comer um bom ensopado...
Nada podia dar errado naquele dia....
.....
...
Silencio.
E de repente, se vê gente correndo como de algo vindo do céu.
Bombardeio! Oh céus!
Fogo vindo do alto!
Confuso, ouvindo o choro de gente desesperada, estrondos e casas em chamas. E o que pensar nesse momento?
- O que está acontecendo!? Oh céus! Minha mulher, meus filhos!
E gritava o sapateiro chefe:
- Corra garoto! Vá salvar tua família!
E correndo desorientado, chegou, e via fumaça ao longe, e escombros, "O que acontecera!?" pensava ele.
O casebre estava desabado no pé direito e pegava fogo, as pobres crianças corriam enquanto o filho mais velho tentava ajunta-las. Mas e Charlotte!?
- Crianças! Venham comigo! Onde está vossa mãe!?
- Não consigo acha-la papai! Gritava o mais velho.
E ao longe veio correndo, e gritava "Vicky! Vicky!"
Oh, era ela, inteira e correndo a direção do amado, mas quando este lhe mirou e a viu, num instante percebeu algo no céu...
- Corra! Corra querida!!
E só deu tempo de gritar... Logo a atingiu um projetil explosivo vindo de avião inimigo... E aos pedaços se foi...
Oh, mas ele conhecia a natureza de sua espécie, se ao menos a casa houvesse desabado nela! Se ao menos a viga mestre lhe houvesse quebrado as pernas! Sobreviveria se assim acontecesse! Mas não, foi míssil certeiro sobre a cabeça...
E se pôs de joelhos, atônito ao chão, não sabia identificar o que acabara de ver. Não sabia o que havia o atingido naquele momento.
- Onde ela está? Ela sumiu...- Sussurrou ele à si mesmo.
E seu filho mais o abraçou, e ninguém sabia dizer o que havia acontecido. Só via os pedaços restantes em chamas, mas nada que pudesse reconhecer bem, nenhum pedaço da doçura de sua amada era visível no caos de chamas e fumaça. E assim se foi o seu mundo. Sua amada havia partido, morrido, pois como usarei eufemismos quando a esposa do pobre homem foi dilacerada em fogo?
- Onde está ela, onde está? Por que ela parou de correr?- Ele continuou sussurrando a si por minutos a fim, com os olhos azuis cheios de lagrimas confusas, e suas crianças assustadas abraçavam ao pai atônito enquanto o primogênito o sacudia e dizia chorando; - Ela não vai chegar aqui, pai! Ela não vai chegar aqui!
....
Não preciso dizer que nunca mais foi o mesmo, o moço Vicktorio. Não digo que não se recuperou, mas superar? Não sei dizer...
Toda a doçura que completava a dele, morreu naquele dia.
Ele continua a ser mais uma fada do campo o que um homem, mas quem o conheceu antes, diz que ele não é metade do que foi. Dizem que foi tanto mais flor quanto mais homem...
Mas não posso dizer nada a respeito.
Certas pessoas simplesmente nasceram pra morrer em Berlim.
A.G. Malone Jagger, Imperador da Mithriléia.
Fim de Transmissão.
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